QUAL O PAPEL DE UMA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES?

QUAL O PAPEL DE UMA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES?

A precariedade dos serviços públicos na Maré dita o tom diário das funções desempenhadas pelas associações de moradores. Essas instituições, em geral, têm o dever de lutar pelos interesses dos moradores, fazendo pressão junto ao poder público para que a localidade usufrua dos seus direitos: à saúde, à infraestrutura urbana, ao lazer, à educação etc.

Mas aqui na Maré, o papel das associações vai muito além, pois elas também precisam agir como se fossem uma subprefeitura. Ou seja, metem a mão na massa – no esgoto, inclusive, como é o caso de Altemir Cardoso, presidente da Associação do Parque Roquete Pinto, que vira e mexe é visto desentupindo bueiro. “Não dá para esperar a Cedae, todo dia temos problema de vazamento de esgoto”, relata ele, exemplificando o tipo de trabalho que desenvolve.

 Entregar correspondência é outra tarefa que cabe ao poder público, mas que em cinco das 16 comunidades da Maré é assumida pela associação. O carteiro tem ordens de deixar os envelopes nessas instituições e a associação que se vire para arranjar dinheiro e contratar um funcionário para separar as correspondências, conforme já relatado na ed. 44 (de agosto deste ano) do Maré de Notícias.

Por falar em dinheiro, as associações não recebem verba pública. O principal (por vezes único) recurso vem da venda de documentos, principalmente de compra e venda de imóvel. Ou seja, mais uma função que não seria delas, caso os moradores tivessem título de propriedade e pudessem registrar devidamente suas casas em cartório, mas essa solução definitiva também cabe ao poder público. Na Maré, somente as casas de Bento Ribeiro Dantas não passam pela associação, e sim pela Companhia Estadual de Habitação (Cohab).

 O número de sócios contribuintes, que poderia ser outra fonte de recursos, costuma ser baixíssimo, mas isso é comum em quase todas as associações de moradores, seja em favela, seja nos bairros da zona sul do Rio. A diferença aqui é que os dirigentes se sentem obrigados a resolver os problemas da Light, da Cedae, da Rioluz, da Comlurb, dos Correios, do SUS etc. Quer dizer, a responsabilidade pela solução do que é público, muitas vezes, recai sobre as associações.

Em busca de soluções estruturantes

 Essas questões vêm sendo debatidas pelos dirigentes das 16 associações de moradores do conjunto de favelas da Maré – do Conjunto Esperança a Marcílio Dias – que se uniram em busca de melhorias estruturantes para o bairro. “Não queremos atuar só no ‘varejo’. Na prática nós precisamos resolver as questões pontuais. Vamos continuar fazendo isso, como ligar para a Light para cobrar o restabelecimento da luz, mas nós queremos trabalhar no macro, queremos mudanças estruturais, duradouras”, explica José Carlos Gomes Barbosa, o Carlinhos, presidente da Associação do Parque Maré. Ou seja, o objetivo é fazer com que os órgãos públicos invistam aqui para que tenhamos serviços de qualidade. Só assim teremos de enfrentar menos questões de “varejo”. Um exemplo é o que vem ocorrendo com a Light. “O atendimento emergencial não soluciona o problema, porque no dia seguinte falta luz de novo.

 Queremos que a Light invista na Maré; precisamos nos preparar para o verão, quando o consumo aumenta”, explica Marco Antonio Barcellos, o Marquinho Gargalo, presidente da Associação da Vila do João.

Maré poderá ter Bairro Maravilha

 Esse é o tom que os atuais dirigentes querem dar ao trabalho que desenvolvem – um tom mais de políticas públicas, de planejamento e não apenas de “apagar incêndio”. Por isso, eles participam de dois coletivos: A Maré que Queremos, projeto coordenado pela Redes de Desenvolvimento da Maré; e da Liga das Associações de Moradores da Maré, que reúne somente os dirigentes. O objetivo é unir esforços para conseguir melhorias estruturantes para as 16 comunidades.

 Com isso, várias reuniões com representantes dos órgãos públicos vêm ocorrendo. Em 6 de setembro, eles se reuniram com o prefeito Eduardo Paes, no Palácio da Cidade, em Botafogo. Paes anunciou em primeira mão que implantará na Maré o programa Bairro Maravilha. Ele viria ao Conjunto Esperança em 28 de setembro lançar o programa, mas o evento foi cancelado na véspera.

 Até o fechamento desta edição, não havia previsão de data para o lançamento do programa. Além do contato com o prefeito, os dirigentes tentam se reunir com o governador Sérgio Cabral para cobrar ações do estado, entre elas o prometido investimento que a Cedae ficou de fazer no sistema de coleta e tratamento de esgoto.

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